domingo, junho 24
Monólogo
Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.
Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.
De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?
Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.
Cecília Meireles - Poesia Completa, V. 1, 2001.
quinta-feira, junho 7
"Encomenda
Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia."
Cecília Meireles - Poesia Completa, V.1, 2001.
sexta-feira, dezembro 9
Doze Homens e Uma Sentença
O filme Doze Homens e Uma Sentença ou Twelve Angry Men, em língua inglesa, marcou a estréia na direção do então jovem cineasta Sidney Lumet, em 1957. O filme acompanha um júri composto de doze homens que devem julgar um jovem porto-riquenho acusado de ter assassinado seu próprio pai. Para o veredicto final, a votação tem que ser unânime e, se for considerado culpado, a lei determina para estes casos que o réu seja condenado à morte. Um clássico! Você pode assistir o filme inteiro neste link. Boa diversão! Doze Homens e uma Sentença
La piel que habito

The Skin I Live In (em inglês) - La piel que habito é um filme espanhol de 2011, dirigido por Pedro Almodóvar e estrelado por Antônio Banderas. É um longa baseado no livro Mygale de Thierry Jonquet.
Thierry Jonquet (January 19, 1954 – August 9, 2009) foi um escritor francês especialista em histórias policiais com temas políticos.
quarta-feira, abril 20
Canção de outono

Fotografia de Chris Martin
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles, Dispersos. 1918-1964. Poesia Completa, vol.II. 2001.
domingo, abril 10
quinta-feira, abril 7

Fotografia de Val Mitov "Sitta europaea"
Como num exílio,
como nas guerras,
meu amigo é morto,
sem nenhum conforto,
em longes terras.
Para consolá-lo,
mandei-lhe versos.
Porém, nada acalma
cuidados da alma
no amor dispersos.
Palavras, palavras,
sobre uma vida.
Ai, ninguém socorre!
Meu amigo morre
sem despedida.
Andamos tão longe!
tão separados!
Morto é o meu amigo,
entre um mar antigo
e céus toldados.
Mas tudo é tão belo,
embora triste,
que já não me importa
sua vida morta,
se em mim subsiste.
Canções. Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1956. 112p.

Fotografia de Val Mitov "Memoirs of an Invisible Man"
Já não tenho lágrimas:
estão caídas
longe, em vagas margens,
qual mornas ovelhas
recém-nascidas.
Longe estão caídas,
entre esses montes
de saudades vivas,
de figuras frias,
ai, de que horizontes!
Suspiros montes!
Porém, agora,
talvez não me encontrem.
Pois a alma se esconde,
porque já nem chora.
Canções. Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1956.
segunda-feira, janeiro 17

O cão Caramelo ajudou a resgatar os corpos de seus donos, soterrados durante a chuva da semana passada, e não arredou pé da sepultura deles.
Ele vivia com sua dona, Cristina Maria Cesário Santana, e outras três pessoas numa casa do bairro Caleme, um dos mais devastados em Teresópolis. A casa foi soterrada e a família morreu. O cão escapou, mas ficou cavando até localizá-los.
Quando as equipes de resgate chegaram ao local, foram guiadas por Caramelo até os corpos. Ele foi resgatado pela ONG Estimação. Não queria sair do lado da cova de sua dona e agora está muito carente. Pula no colo de qualquer pessoa que se aproxime.
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/861565-cao-ajuda-a-resgatar-corpos-de-seus-donos-em-teresopolis-rj.shtml
sexta-feira, janeiro 7
Perto do Coração Selvagem
... Ela olhava o piano aberto - as músicas lá estavam contidas... p.40
Margarida a Violeta conhecia,
uma era cega, uma bem louca vivia,
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via... p.48
segunda-feira, dezembro 20
Perto do Coração Selvagem
Não acusar-me. Buscar a base do egoismo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente -; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo, se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos-relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, adivinhava ela. p. 20
... Mas estou cansada, apesar de minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono. p.22
terça-feira, setembro 28
Dupla anticâncer

Fotografia de Eyal Ogash
Divulgação Científica
Dupla anticâncer
28/9/2010
Agência FAPESP – Uma pesquisa feita na Virginia Commonwealth University (VCU), nos Estados Unidos, mostrou que a combinação da doxorrubicina, uma poderosa droga anticâncer, com o citrato de sildenafil (comercializado como Viagra), aumenta a eficácia do primeiro no combate contra tumores de próstata ao mesmo tempo em que protege contra eventuais danos ao coração. http://www.agencia.fapesp.br/materia/12834/dupla-anticancer.htm
[sem título]
quinta-feira, setembro 24
Finalmente o preto dá lugar ao azul
Depois de 14 anos sem um álbum inédito, o Alice in chains lança o álbum "Black gives way to blue". É impossível não comentar a semelhança do nome do álbum com "Back in Black", do AC/DC (1980). As circunstâncias que nomearam os dois são as mesmas: retorno da banda após a morte de seus respectivos vocalistas.Sem surpresas, um bom álbum. O guitarrista Jerry Cantrell continua tocando muito bem dentro do seu estilo e o novo vocalista, William DuVall, mostra-se bem integrado à banda.
A música que fecha o álbum é uma homenagem ao vocalista finado. Uma narrativa sobre o processo de cura da banda, que perdeu sua voz e uma peça fundamental de sua criação. A curiosidade é que nessa música o piano foi gravado por Elton John.
domingo, setembro 20
A minha princesa branca - Cecília Meireles
Ela anda pelas espumas...
- Serenidades lunares,
Tristezas suaves de brumas...
Ela anda nos céus vazios,
Em brancas noites morosas;
Mira-se na água dos rios,
Dorme na seda das rosas...
Passa em tudo, grave e mansa...
E, do seu gesto profundo,
Solta-se a grande esperança
De coisas fora do mundo...
Por sobre as almas vagueia:
Almas santas... Almas boas...
É um palor de lua cheia,
Na água morta das lagoas...
Quando contemplo as encostas,
De alma ansiosa por vencê-las,
Vejo-a no alto, de mãos postas,
Muda e coroada de estrelas...
E vou, sofrendo degredos,
A dominar os espaços...
Só quero beijar-lhe os dedos
E adormecer-lhe nos braços!
Nunca Mais, Cecília Meireles-Poesia Completa, vol. 01, editora Nova Fronteira, 2001.
Primeira edição do livro Nunca Mais é de 1923 pela editora A Grande Livraria Leite Ribeiro, 152 p.
Os primeiros livros de Cecília, nos quais se inclue Nunca Mais, não fazem parte da Obra Poética (1958) nem da Antologia Poética (1963), organizada pela autora.
"Talvez fosse correto pensar sua segunda coletânea, Nunca Mais... e Poema dos Poemas (1923), não pela excelência de seus poemas, que não ficam na memória do leitor, mas pela afirmação de uma atmosfera outonal, em que o eu se sente reduzido à condição fulgaz, sem lugar na história do mundo físico. ... Parca é a alegria em textos contaminados por um sentimento de impotência e de desilusão que leva o eu a abismar-se na contemplação do infinito representado principalmente pela noite, símbolo de tudo que se apaga. ...
Estes livros configuram um discurso que poderia ser definido como insinuante, sugestivo, tal o uso das reticências - as reticências estão para a linguagem como a neblina e o mistério para a vida física".
Comentários de Miguel Sanches Neto, no livro Cecília Meireles-Poesia Completa, vol. 01, editora Nova Fronteira, 2001.

