quarta-feira, abril 20

Canção de outono


Fotografia de Chris Martin


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles, Dispersos. 1918-1964. Poesia Completa, vol.II. 2001.

domingo, abril 10



quinta-feira, abril 7


Fotografia de Val Mitov "Sitta europaea"

Como num exílio,
como nas guerras,
meu amigo é morto,
sem nenhum conforto,
em longes terras.

Para consolá-lo,
mandei-lhe versos.
Porém, nada acalma
cuidados da alma
no amor dispersos.

Palavras, palavras,
sobre uma vida.
Ai, ninguém socorre!
Meu amigo morre
sem despedida.

Andamos tão longe!
tão separados!
Morto é o meu amigo,
entre um mar antigo
e céus toldados.

Mas tudo é tão belo,
embora triste,
que já não me importa
sua vida morta,
se em mim subsiste.

Canções. Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1956. 112p.

Fotografia de Val Mitov "Memoirs of an Invisible Man"

Já não tenho lágrimas:
estão caídas
longe, em vagas margens,
qual mornas ovelhas
recém-nascidas.

Longe estão caídas,
entre esses montes
de saudades vivas,
de figuras frias,
ai, de que horizontes!

Suspiros montes!
Porém, agora,
talvez não me encontrem.
Pois a alma se esconde,
porque já nem chora.


Canções. Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1956.