Estendo os olhos aos mares:
Ela anda pelas espumas...
- Serenidades lunares,
Tristezas suaves de brumas...
Ela anda nos céus vazios,
Em brancas noites morosas;
Mira-se na água dos rios,
Dorme na seda das rosas...
Passa em tudo, grave e mansa...
E, do seu gesto profundo,
Solta-se a grande esperança
De coisas fora do mundo...
Por sobre as almas vagueia:
Almas santas... Almas boas...
É um palor de lua cheia,
Na água morta das lagoas...
Quando contemplo as encostas,
De alma ansiosa por vencê-las,
Vejo-a no alto, de mãos postas,
Muda e coroada de estrelas...
E vou, sofrendo degredos,
A dominar os espaços...
Só quero beijar-lhe os dedos
E adormecer-lhe nos braços!
Nunca Mais, Cecília Meireles-Poesia Completa, vol. 01, editora Nova Fronteira, 2001.Primeira edição do livro Nunca Mais é de 1923 pela editora A Grande Livraria Leite Ribeiro, 152 p.
Os primeiros livros de Cecília, nos quais se inclue
Nunca Mais, não fazem parte da
Obra Poética (1958) nem da
Antologia Poética (1963), organizada pela autora.
"Talvez fosse correto pensar sua segunda coletânea, Nunca Mais... e Poema dos Poemas (1923), não pela excelência de seus poemas, que não ficam na memória do leitor, mas pela afirmação de uma atmosfera outonal, em que o eu se sente reduzido à condição fulgaz, sem lugar na história do mundo físico. ... Parca é a alegria em textos contaminados por um sentimento de impotência e de desilusão que leva o eu a abismar-se na contemplação do infinito representado principalmente pela noite, símbolo de tudo que se apaga. ...
Estes livros configuram um discurso que poderia ser definido como insinuante, sugestivo, tal o uso das reticências - as reticências estão para a linguagem como a neblina e o mistério para a vida física".
Comentários de Miguel Sanches Neto, no livro
Cecília Meireles-Poesia Completa, vol. 01, editora Nova Fronteira, 2001.