quarta-feira, fevereiro 25

Cantata Vesperal - Cecília Meireles

Liz Weisiger Photography

Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.

Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.

Adiamento - Fernando Pessoa

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã.
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro.
A minha vida triunfar-se-á
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã.
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
14-04-1928

Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.


Soneto do amor como um rio - Vinicius de Moraes

Cliff Berinsky Photography


Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo...

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Em Para viver um grande amor, Vinicius de Moraes, 1a ed., MEDIAfashion, 2008.

segunda-feira, fevereiro 23

Congresso Internacional do Medo - Carlos Drummond de Andrade
















Tomasz Wojciechowski Photography


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Em Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade, 1a ed., MEDIAfashion, 2008.



segunda-feira, fevereiro 16

Os meus versos - Florbela Espanca

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada dum momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…



Em Poesia de Florbela Espanca, vol. 2, L&PM, outono de 2006.

Mikel Arrizabalaga Photography



Livros de Florbela Espanca para baixar



domingo, fevereiro 15

Sugestão - Cecília Meireles



Juan Chamorro Photography

Sede assim — qualquer coisa

serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,

sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.


Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.

Leveza - Cecília Meireles



Andrey Antov Photography

Leve é o pássaro:

e a sua sombra voante,

mais leve.


E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.


E o que lembra, ouvindo-se

deslizar seu canto,

mais leve.

E o desejo rápido

desse mais antigo instante,
mais leve.


E a fuga invisível

do amargo passante,
mais leve.



Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.


sábado, fevereiro 7

- Cancioneiro/Fernando Pessoa


Hilary Wilkinson Photography

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Janeiro de 1931

Em Cancioneiro/Fernando Pessoa, Martin Claret, 2008.