quarta-feira, dezembro 31

olhar do desejo - filme

Hallam Foe ou Olhar do Desejo, no Brasil, é uma história dura e suave, sombriamente engraçada, com tempero agridoce, delícia! O filme conta a história de Hallam, um garoto de 17 anos que foge dos padrões de comportamento pré-estabelecidos devido à sua maneira ímpar de entender a vida. O mistério que envolve a morte de sua mãe faz com que Hallam passe a suspeitar de sua madrasta, promovendo investigações ao seu modo, atormentado e peculiarmente sensível.


sábado, dezembro 27

Carta aos "Puros" - Vinicius de Moraes

Eugenio Pastor Benjumeda Photography


Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alvar dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens ilumidados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra…
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Em Para viver um grande amor, Vinicius de Moraes, 1a ed., MEDIAfashion, 2008.

VI - A Rua dos Cataventos, Mario Quintana

Diego Ravalico Photography

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente...

Em 80 anos de poesia, A Rua dos Cataventos, Mario Quintana, organização Tânia Franco, 12a ed., Globo, 2003.

Depois da feira - Fernando Pessoa

Diego Ravalico Photography

Vão vagos pela estrada,
Cantando sem razão
A útima esp'rança dada
À última ilusão.
Não significam nada.
Mimos e bobos são.

Vão juntos e diversos
Sob um luar de ver,
Em que sonhos imersos
Nem saberão dizer,
E cantam aqueles versos
Que lembram sem querer.

Pajens de um morto mito,
Tão líricos!, tão sós!,
Não têm na voz um grito,
Mal têm a própria voz;
E ignora-os o infinito
Que nos ignora a nós.

22 de maio de 1927

Em Cancioneiro/Fernando Pessoa, Martin Claret, 2008.

terça-feira, dezembro 23

Mistério - Florbela Espanca


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa bôca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Em Sonetos Completos, Charneca em Flor, Florbela Espanca, Ed. Coimbra, 1934.

Lisbon revisited - Fernando Pessoa


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ - o mesmo da minha infância ­ -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo ...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
1923

Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.

quinta-feira, dezembro 18

homenageado do ano na Flip de 2009

O poeta Manuel Bandeira (1886-1968) será o homenageado do ano na sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que acontecerá entre os dias 1º e 5 de julho de 2009.

Manuel Bandeira, professor, poeta, cronista, crítico, historiador literário, tradutor de obras importantes, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1940, na sucessão de Luís Guimarães. Foi crítico de artes plásticas, literária e musical para vários jornais e revistas, durante toda a sua vida.

Por conta desta homenagem ao autor, algumas editoras já estão programando novas edições de Bandeira, tais como a Nova Fronteira, que publica a poesia de Bandeira, a Cosac Naify que irá reeditar "Apresentação da Poesia Brasileira", a tradução que o poeta fez de "Macbeth" de William Shakespeare, entre outras. Também será lançado um segundo volume de crônicas inéditas.

Para saber mais:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u480808.shtml
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=249

terça-feira, dezembro 16

Poética - Manuel Bandeira


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
[protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
[cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si
[mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Em Libertinagem & Estrela da Manhã, Manuel Bandeira, 1a. ed., MEDIAfashion, 2008.

segunda-feira, dezembro 15

Os ombros suportam o mundo - Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Em Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade, 1a ed., MEDIAfashion, 2008.

Quando ela passa - Fernando Pessoa

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa.... passa...

Nesta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite cerrada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu'o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
F'erida no meu coração
Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu: -
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:
Epitáfio
Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela,
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa...
5 de maio de 1902

Em Cancioneiro/Fernando Pessoa, Martin Claret, 2008.

sábado, dezembro 13

O homem no escuro - livro

Paul Auster apresenta o cotidiano das pessoas. Apesar de não ser cativante como Desvarios no Brooklin, O homem no escuro é suave e calmo. Ora triste, ora feliz, com um desespero escondido na maioria das frases, sentimento comum da vida moderna, principalmente da norte-americana. O livro começa com duas historias, em paralelo, que se alternam entre a vida de um escritor aposentado, August, e um anti-herói, fruto da imaginação e da insônia de August. A história do anti-herói, embarcada em um cenário de terror e guerra, é finalizada rapidamente. Com isso surge mais espaço para a descrição da vida de August e de seus familiares. A partir daqui o livro ganha e descreve a vida, através da história de pessoas simples, e reais.

Cecília Meireles


Uma das filhas de Cecília Meireles (1901-1964), Maria Fernanda, tem se dedicado a divulgar a esplendorosa obra da mãe, no Brasil e no exterior. A ela coube a missão de selecionar poemas de Cecília Meireles para publicação na coleção Os Melhores Poemas, da Editora Global. Segundo Maria Fernanda, seu critério de escolha baseou-se em algumas premissas. Faço aqui uso de suas palavras para estabelecer a precisão devida. "Em primeiro lugar, não incluir obras e poemas que em si encerram um sentimento, uma emoção, uma reflexão, a meu ver, não divisível e que o leitor deveria receber como um todo. Além disso, levar em consideração as diversas fases da obra da autora, excetuando a inicial, por ela mesma excluída, por algum motivo, quando da edição da Obra Poética da Editora Aguiar. E, por último, aproveitar minha longa experiência como intérprete da obra de Cecília Meireles junto às mais variadas platéias, dentro e fora do país, que me permitiu avaliar, até certo ponto, as preferências do público."
Então, boa leitura!


Comunicação

Pequena lagartixa branca,
ó noiva brusca dos ladrilhos!
sobe à minha mesa, descansa,
debruça-te em meus calmos livros.


Ouve comigo a voz dos poetas
que agora não dizem mais nada,
– e diziam coisas tão belas! –
ó ídolo de cinza e prata!

Ó breve deusa de silêncio

que na face da noite corres
como a dor pelo pensamento,
– e sozinha miras e foges.

Pequena lagartixa – vinda
para quê? – pousa em mim teus olhos.
Quero contemplar tua vida,
a repetição dos teus mortos.

Como os poetas que já cantaram,

e que já ninguém mais escuta,
eu sou também a sombra vaga
de alguma interminável música.


Pára em meu coração deserto!
Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...
Sobre a torrente do universo,

nas pontes frágeis da poesia.

Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.

Estômago - filme


Marcos Jorge, depois de uma bem-sucedida carreira como diretor de curtas-metragens, estréia como diretor de longa-metragens de ficção, com o filme Estôgamo. A história é inspirada no conto "Presos pelo Estômago", do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim", de Lusa Silvestre.

A história do filme desenrola-se em dois cenários paralelos e concomitantes. Um onde Raimundo Nonato (João Miguel), recém chegado à cidade grande, é contratado como faxineiro em um bar e logo destaca-se por seu talento para a culinária. Onde conhece Iria (Fabiula Nascimento), uma garota de programa pela qual se apaixona. O outro mostra a vida de Raimundo Nonato numa penitenciária. Durante quase todo o filme, as tramas seguem paralelamente e independentes, entrelaçando-se apenas no final. Essa é a história, nada infantil, do nascimento de um assassino em série. Vale a pena assistir!



Ficha Técnica:
Título Original: Estômago
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento (Brasil / Itália): 2007
Estúdio: Zencrane Filmes / Indiana Filmes
Distribuição: Downtown Filmes
Direção: Marcos Jorge
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito, baseado em argumento de Lusa Silvestre e Marcos Jorge
Produção: Cláudia da Natividade, Fabrizio Donvito e Marcos Cohen
Música: Giovanni Venosta
Fotografia: Toca Seabra
Direção de Arte: Jussara Perussolo
Figurino: Marisol Grossi
Edição: Luca Alverdi