terça-feira, janeiro 27

Qualquer música... - Fernando Pessoa



Ron Jones Photography

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.


Dolora - Fernando Pessoa



Antonio Díaz Photography

Dantes quão ledo afetava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.



XII - Ricardo Reis - Fernando Pessoa

Andrey Antov Photography


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.


Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.


Requiescat - Olavo Bilac

Sergei Sogokon Photography


Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram...
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!

Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...

Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.

Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti.

Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!

Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.

Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...


Em Poesias, Olavo Bilac, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2004.

sexta-feira, janeiro 23

À sombra dos manuscritos em flor - Projeto temático decifra cahiers de Proust

Carlos Haag

Foi o próprio Marcel Proust (1871-1922) quem lançou o desafio aos críticos literários da posteridade ao afirmar, em O tem­po redescoberto: “Um livro é um grande cemitério onde, sobre a maioria dos túmulos, não se podem mais ler os nomes apagados”. O escritor, claro, não poderia imaginar que seus preciosos manuscritos, os famosos cahiers proustianos, usados para esbo­çar as 4.300 páginas dos sete volumes de Em busca do tem­po perdido, obra que tomou 15 anos da sua vida, fossem um dia ser matéria de análise da chamada crítica genética, empenhada em decifrar o “DNA literário” do mais emblemático “romance-rio” de todos os tempos, a fim de compreender como Proust trabalhou (e “retrabalhou”) sua obra. “Tenta-se detectar o processo de criação dos escritores, de como eles passaram de uma frase a outra. Cada rascunho proustiano é um microcosmo da própria obra, no plano da escritura, da narrativa, mas, acima de tudo, no plano dos motivos que se esboçam, dos temas que se respondem e vão encontrar seu eco em outros contextos em que se disseminarão”, explica Philippe Willemart, crítico literário da USP e coordenador do Projeto Temático Brépols brasileiro, apoiado pela FAPESP, que visa decifrar e publicar parte dos 75 cadernos de manuscritos do autor. Esses, desde 1962, estão na Biblioteca Nacional da França e a partir de 2003 começaram a ser decifrados pela Equipe Proust do Institut de Textes et Manuscrits Modernes, o Item, para publicação (continua...)

quinta-feira, janeiro 22

Django Reinhardt

Django Reinhardt (1910-1953) foi um dos principais responsáveis em transformar a guitarra em um intrumento de solo, trazendo-a à frente da banda. Em seu tempo, a guitarra era considerada apenas um instrumento de acompanhamento, com os metais servindo primariamente à melodia principal. Na música "Tears", pode-se notar a beleza que o compositor obteve a partir de acordes simples. Uma boa execução dessa música pode ser vista/ouvida no youtube... inspiração obtida de uma vida boêmia e repleta de adversidades.
Como curiosidade, no filme "Poucas e Boas" (Sweet and Lowdown, 1999), o protagonista, também guitarrista de jazz e representado por Sean Penn, vive em eterna admiração, agonia e medo em relação a possibilidade de encontrar, durante as suas apresentações, com Django.

quarta-feira, janeiro 21

LXXXIX - Pablo Neruda



El Porte-Bonheur Photography


QUANDO eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pêlo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.


Em Pablo Neruda - Cem Sonetos de Amor, trad. Carlos Nejar, L&PM, outono de 2008.

Velhas Árvores - Olavo Bilac



Jose Ignacio Saez de Ugarte Photography


Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!


Em Poesias, Olavo Bilac, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2004.

terça-feira, janeiro 20

Reinvenção - Cecília Meireles



Botikario Photography

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
Desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.


Não: não digas nada! - Fernando Pessoa



Antonio Díaz Photography

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

5/6-02-1931


Em Mensagem, Fernando Pessoa, Coleção a Obra-prima de cada Autor, ed. Martin Claret, outono de 2003.

segunda-feira, janeiro 19

Poetas - Florbela Espanca






Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!


Em Poesia de Florbela Espanca, vol. 1, L&PM, 2008.