sexta-feira, janeiro 23

À sombra dos manuscritos em flor - Projeto temático decifra cahiers de Proust

Carlos Haag

Foi o próprio Marcel Proust (1871-1922) quem lançou o desafio aos críticos literários da posteridade ao afirmar, em O tem­po redescoberto: “Um livro é um grande cemitério onde, sobre a maioria dos túmulos, não se podem mais ler os nomes apagados”. O escritor, claro, não poderia imaginar que seus preciosos manuscritos, os famosos cahiers proustianos, usados para esbo­çar as 4.300 páginas dos sete volumes de Em busca do tem­po perdido, obra que tomou 15 anos da sua vida, fossem um dia ser matéria de análise da chamada crítica genética, empenhada em decifrar o “DNA literário” do mais emblemático “romance-rio” de todos os tempos, a fim de compreender como Proust trabalhou (e “retrabalhou”) sua obra. “Tenta-se detectar o processo de criação dos escritores, de como eles passaram de uma frase a outra. Cada rascunho proustiano é um microcosmo da própria obra, no plano da escritura, da narrativa, mas, acima de tudo, no plano dos motivos que se esboçam, dos temas que se respondem e vão encontrar seu eco em outros contextos em que se disseminarão”, explica Philippe Willemart, crítico literário da USP e coordenador do Projeto Temático Brépols brasileiro, apoiado pela FAPESP, que visa decifrar e publicar parte dos 75 cadernos de manuscritos do autor. Esses, desde 1962, estão na Biblioteca Nacional da França e a partir de 2003 começaram a ser decifrados pela Equipe Proust do Institut de Textes et Manuscrits Modernes, o Item, para publicação (continua...)

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