
Uma das filhas de Cecília Meireles (1901-1964), Maria Fernanda, tem se dedicado a divulgar a esplendorosa obra da mãe, no Brasil e no exterior. A ela coube a missão de selecionar poemas de Cecília Meireles para publicação na coleção Os Melhores Poemas, da Editora Global. Segundo Maria Fernanda, seu critério de escolha baseou-se em algumas premissas. Faço aqui uso de suas palavras para estabelecer a precisão devida. "Em primeiro lugar, não incluir obras e poemas que em si encerram um sentimento, uma emoção, uma reflexão, a meu ver, não divisível e que o leitor deveria receber como um todo. Além disso, levar em consideração as diversas fases da obra da autora, excetuando a inicial, por ela mesma excluída, por algum motivo, quando da edição da Obra Poética da Editora Aguiar. E, por último, aproveitar minha longa experiência como intérprete da obra de Cecília Meireles junto às mais variadas platéias, dentro e fora do país, que me permitiu avaliar, até certo ponto, as preferências do público."
Então, boa leitura!
Então, boa leitura!

Comunicação
Pequena lagartixa branca,
ó noiva brusca dos ladrilhos!
sobe à minha mesa, descansa,
debruça-te em meus calmos livros.
Ouve comigo a voz dos poetas
que agora não dizem mais nada,
– e diziam coisas tão belas! –
ó ídolo de cinza e prata!
Ó breve deusa de silêncio
que na face da noite corres
como a dor pelo pensamento,
– e sozinha miras e foges.
Pequena lagartixa – vinda
para quê? – pousa em mim teus olhos.
Quero contemplar tua vida,
a repetição dos teus mortos.
Como os poetas que já cantaram,
e que já ninguém mais escuta,
eu sou também a sombra vaga
de alguma interminável música.
Pára em meu coração deserto!
Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...
Sobre a torrente do universo,
nas pontes frágeis da poesia.
Em Os melhores poemas de Cecília Meireles/seleção, Maria Fernanda, 15a ed., Global, 2004.
Nenhum comentário:
Postar um comentário